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Roberto C. Mayer

Testemunho que recebemos de Roberto C. Mayer:

Eu publiquei, em 2001, por meio deles [Axcel Books] um livro que virou sucesso de vendas [Otimizando a Performance de Bancos de Dados Relacionais]. Só no lançamento, feito na época no recém inaugurado Shopping Villa Lobos em São Paulo, reunimos mais de duzentas pessoas. A primeira prestação de contas me pareceu correta (eu já tinha publicado três livros em outras editoras). Mas, depois… os valores minguaram, e os pagamentos passaram a ser feitos em livros… Seu conteúdo independe da tecnologia, razão pela qual até hoje esse livro está a venda em diversos sites. Mas obviamente, fazem muitos anos que não recebo nada por isso. Pelo visto, somos obrigados a aguentar a PILANTROPIA!

Funcionários da Axcel

Os ex-funcionários da Axcel Books entraram pelo cano de várias formas. O principal problema de se trabalhar na Axcel era que a editora descontava todos os impostos mas aparentemente não os repassavam ao órgão apropriado (Receita Federal, INSS, etc). Funcionários com 15 anos de casa descobriram, depois que “a casa caiu”, que a Axcel nunca depositou um centavo em suas contas do FGTS. Mais um exemplo do grau (ou melhor, falta) de ética da Axcel Books.

O pior é que isso aconteceu comigo também, em relação ao imposto de renda. Teve um ano que eles me descontaram um valor e pagaram à Receita Federal outro valor, e acabei caindo na famigerada malha fina, levando dois anos para a Receita finalmente “corrigir” o problema e liberar minha restituição daquele ano. No meu caso específico até acho que não foi má-fé, foi pura falta de organização mesmo, já que a contabilidade da empresa era feita “nas coxas”.

George Leal Jamil

Entre 1999 e 2006 tive seis títulos publicados com a Axcel, alguns de minha autoria isolada, outros com co-autores. Neste período fiz a apresentação de novos contatos para a editora e tive repercussão dos meus trabalhos no mercado editorial e no meio acadêmico.

A partir de 2002 ou 2003, o relacionamento mudou substancialmente, mesmo para os trabalhos editados após este período: não havia o tratamento no nível percebido anteriormente e muito menos a transparência necessária na emissão dos relatórios financeiros e muito menos no recolhimento de minhas remunerações. Sem contato, embora com a perspectiva de recepção de valores não muito altos, verifiquei que a Editora havia se mudado ou deixado de existir. Não fomos comunicados de nada e agora, ao ter novas oportunidades de desenvolvimento de trabalhos, fiquei espantado de verificar o nível apresentado de omissão de informações aos demais autores deste período. Um absurdo!

Lamento imensamente que profissionais deste nível, como falei ao Gabriel Torres, autor que aprecio e sempre indiquei como referência, tenham sido vítimas de tais tratamentos, que considero frontalmente incorretos e em prática criminosa. Seria de honestidade mínima que os antigos proprietários viessem à justiça e dessem seu posicionamento quanto ao cumprimento de contratos, de normas e fossem ao mínimo honestos, pois se não têm nomes a zelar, os autores merecem respeito.

Vamos à luta!

Carlos Barbieri

Meu nome é Carlos Barbieri e também fui vítima da Axcel Books.

A minha história começou em 2001, quando resolvi escrever um livro sobre BI-Business Intelligence, assunto que começava a despontar e sobre o qual eu desenvolvera experiências práticas na empresa onde trabalhava, aqui em BH. Fiz o contato com o Ricardo e a história que se seguiu foi a mesma de todos. O mesmo enredo já descrito aqui pelos outros lesados. Interesse imediato, livro editorado e editado, etc, etc.

O livro vendeu bem, pois era o único texto em português sobre o assunto. Ainda hoje (quase) o é, embora esgotado. O livro foi amplamente adotado em inúmeras universidades pelo Brasil, tanto em cursos de graduação, quanto de pós-graduação.

O desfecho do meu relacionamento com o Ricardo foi mais ou menos o mesmo de todos: atrasos nos pagamentos dos direitos, planilhas comprobatórias extremamente suspeitas, oferta de pagamento de direitos através dos meus próprios livros, enrolação e mau atendimento,etc, etc.

Mas um fato interessantíssimo  aconteceu, mostrando o perfil do preclaro Ricardo Reimprecht: Certa feita eu estava numa livraria no Rio de Janeiro, no Shopping da Tijuca, quando olhando os livros sobre o assunto BI me deparei com um livro chamado “A Essência do BI”, de um outro autor, cujo nome omito. Comprei o livro por um interesse puro de aprender sempre. Passados alguns meses, quando folheava o livro, percebi que ele continha em torno de 13 páginas copiadas do meu. Ou seja, o autor havia escaneado aquelas 12-13 páginas e jogado para o Word e, sem escrúpulo algum, inserido no seu próprio texto. Teve o cuidado de não me citar nas referências bibliográficas, talvez para não chamar a atenção.  Citou somente um outro livro meu (Modelagem de Dados) que não guardava nenhuma relação com o assunto. Imediatamente fiz um arquivo digital contendo as páginas originais (do meu livro) e as respectivas cópias do tal livro. Liguei para o Ricardo relatando o fato e lhe enviei o arquivo, onde comparava, parágrafo a parágrafo, os nossos (digo, meus) escritos. Os que estavam no meu livro e os que estavam na cópia. O Ricardo me atendeu com aparente indignação, me prometendo ações imediatas e severas na justiça, dizendo que iríamos ganhar fácil aquela questão, que eu não precisa me preocupar, que ele faria contatos tão logo tivesse passado para a área jurídica da Axcel, etc, etc,etc.

Passados mais de 11 meses, repito 11 meses, depois de ligações que ele insistia em não me atender, por vezes me atendia de forma lacônica e desinteressada, resolvi partir para a briga. Numa das últimas ligações em que ele me atendeu, falei que eu iria brigar na justiça, visto que a Axcel Books não estaria interessada em nos defender (chamei atenção para o fato de que ele detinha 90% dos direitos e eu 10%, pois assim eram os contratos). Ele contra-argumentou dizendo que a editora que publicara o tal livro, era de amigos deles, que outrora foram sócios, hoje pertencia a um grande grupo editorial, que não sabe se valia a pena brigar, poderia ter retaliações, etc, etc, etc.

Busquei um advogado aqui em BH, entramos com um ação por danos morais e danos materiais contra editora (não a Axcel, a outra) e contra ao autor do plágio. Depois de dois anos ganhei tudo. Ganhei mais dinheiro nas barras da justiça do que nos direitos autorais com a Axcel. Para ganhar vendendo o meu livro, o que ganhei na justiça, eu teria que ser um Paulo Coelho da área de BI, descontadas as devidas amplificações…

Resumo da ópera: Como poderíamos esperar que o Sr Ricardo Reimprecht, que naquela ocasião não respeitou nem os seus próprios direitos, violentados por um infame caso de plágio, poderia respeitar os direitos dos outros(no caso nossos, os autores..).

Hoje estou reescrevendo o livro e pretendo lançá-lo em 2010 e o antigo (BI – Modelagem e Tecnologia), transformei em pdf e distribuo gratuitamente àqueles que contribuírem com um pequeno valor para um hospital que atende crianças com câncer aqui de BH. Os detalhes estão no meu blog (http://blogdobarbi.blogspot.com) ou no meu twitter (@carlosbarbieri).

Grato pela oportunidade. 

Gabriel Torres comenta:

Tive problema similar de plágio, que não cheguei a comentar publicamente, porém ocorreu o mesmo. Encontrei em 2001 um livro que era uma cópia do meu livro, levei a denúncia à Axcel, fiz os relatórios de plágio solicitados (comparando parágrafo a parágrafo, a maior trabalheira) e eles nunca fizeram nada a respeito. Mais um ponto onde entrei pelo cano, porque como todo autor sabe, a questão do plágio não é ganhar dinheiro com o fato em si, mas sim tirar esses “autores” “control C + control V” do mercado. Em 2007, arrumando meu armário, achei esse livro e outros dois exemplos de plágio (clique aqui para ver).

Amaury Bentes

Bem pessoal, se é para dar uma força para uma causa justa, deixo aqui o meu depoimento:

O meu nome é Amaury Bentes. Apesar de ter formação na área de humanas, sempre fui apaixonado por computadores. Por isso abandonei um mestrado na UFRJ para me dedicar a estudar Informática por conta própria. O meu orientador até me ofereceu um doutorado nos Estados Unidos caso eu concordasse em terminar a tese  e continuasse na área, mas eu estava decidido, pois sempre achei que a gente só se realiza profissionalmente fazendo aquilo de que gosta.

Nos anos 90 fui para SãoPaulo e comecei a trabalhar como instrutor de informática na Impacta, que na época ainda era uma empresa pequena, mas muito promissora. Me tornei certificado pela Microsoft e fui evoluindo a ponto de ter escrito durante quatro anos uma coluna sobre informática em um conhecido jornal paulista.

Então criei o primeiro curso de Windows Avançado da cidade onde eu explicava os arquivos de configuração e ensinava a mexer no registro do sistema. Cada dia eu aprendia mais e era natural que acabasse escrevendo sobre o assunto de que gostava tanto, ainda mais com o incentivo dos alunos.

Meu projeto era fazer um livro de Informática que ninguém tivesse ainda escrito no Brasil. E escrevi um chamado “Windows 98 – Arquitetura e Registro, Tecnologias e Recursos Avançados”. Foi o primeiro livro escrito em português que abordava em profundidade como manipular o registro e outras características avançadas do sistema da Microsoft para personalizar a máquina.

No Começo Tudo São Flores

Procurei a Axcel e conheci o Ricardo Reinprecht que na época me causou uma boa impressão. Super gentil e irradiando otimismo. Era o típico empreendedor bem sucedido, aquele cara que parecia adorar o que fazia e que estava sempre de bem com a vida.

No início o livro não apareceu muito, até que duas pessoas conhecidas da área deram um força: a primeira foi o B.Piropo um famoso colunista que escreve sobre informática no jornal O Globo que publicou uma coluna elogiando muito o livro. O outro foi o Gabriel, que o indicou como livro do mês em seu site o Clube do Hardware. Faz muito tempo, não é mesmo Gabriel?

Depois disso o livro ficou bem conhecido e o estoque foi todo vendido. Também escrevi um segundo livro para a Axcel sobre o programa Fireworks, um editor de imagens para a web, muito usado pelos webdesigners.

Depois Vem os Espinhos…

Meu primeiro azar foi com a maxi-desvalorização do real que o governo foi obrigado a fazer em 1998 em consequência de problemas com o financiamento da dívida pública, agravada com a crise da Rússia que afetou todos os países em desenvolvimento como o Brasil. Vi a grana que eu tinha para receber no começo do ano seguinte desvalorizar-se em 30% sem poder fazer nada. Mas até ali, tudo bem.

O pagamento dos royalties (direitos do autor) por contrato era trimestal. E enquanto o livro vendia medianamente eles me pagavam pontualmente. Mas depois de um tempo e principalmente depois que começou a vender bastante começaram as dificuldades para eu receber.

Eu precisava ir pessoalmente na editora em datas que eles marcavam e quando chegava lá às vezes não tinha dinheiro, outras não havia ninguém para atender. Falei com o Ricardo Reinprecht e ele me orientou a falar sempre com o sócio dele o Romero, que de acordo com o que me disse, era quem cuidava dessa parte.

Perdi a conta do número de vezes que fui na sede da editora em Bonsucesso para tentar receber. Eles pagavam, é verdade, mas sempre com atraso ou só uma parte do que deviam.

No final, acabei recebendo tudo (pelo menos de acordo com as planilhas que eles me mostravam). Mas para cada vez que conseguia sair de lá com alguma coisa eu já tinha ido lá umas outras três sem ver a cor do dinheiro. E ainda por cima, por força dos contratos, tive que ficar quatro anos sem poder publicar nada por outra editora.

Inclusive o sócio do Ricardo, o Romero, que agora soube pelo Gabriel que também saiu de lá com um tremendo prejuízo, era um dos que mais me sacaneavam. Mandava dizer que não estava e às vezes me tratava com ironia. Uma vez quando ele novamente me enrolou adiando pela terceira ou quarta vez a data do recebimento eu disse que não iria mais escrever nada para a Axcel ao que ele respondeu com um tom de sarcasmo: “então tá legal”. Acho bem feito que tenha se dado mal com o sócio!

No meu caso a coisa não ficou tão séria a ponto de eu precisar processar a editora, tanto porque os valores não eram tão altos que justificassem o desgaste de promover uma ação numa justiça sabidamente lenta, quanto pelo fato de eu apesar dos pesares, ter recebido tudo. Mas para conseguir isso, tive muita dor de cabeça e tomei muito chá de cadeira.

De qualquer forma a experiência contribuiu para que eu me decidisse a parar de escrever sobre tecnologia (apesar de gostar muito do tema) e passar a fazer livros para quem está se preparando para concursos, um mercado muitíssimo mais promissor.

Fica mais esse testemunho sobre o modo de agir dessa pessoa, cuja fama aliás já é bem conhecida entre os seus próprios colegas editores que já me contaram histórias incríveis sobre ela.

Heloisa Stiebler

Com certeza não fui tão vítima da Acxel quanto o Gabriel, mas…

Minha experiência com essa editora começou em 1995. Sendo uma percussora do ensino de Informática no Rio de Janeiro, escrevi um primeiro livro mostrando às crianças como era o funcionamento de um computador. Na época as crianças não tinham tanto acesso ao computador como hoje e a Informática Educativa dava seus primeiros passos e ganhava espaço.

Foi aí que procurei a Axcel na pessoa do Sr. Ricardo Reinprencht. Muito solícito (como sempre são a maioria dos farsantes), ficou com meus originais e no mesmo dia disse-me que o material era ótimo e que iria publicar.

Ricardo junto com sua esposa Gisella Narcisi sugeriram que eu fizesse uma série de livros para crianças. Assim foi feito. Um trabalho que durou meses, pois eu, como educadora, sabia da responsabilidade em atingir diversas crianças com um tema tão recente ainda.

Houve festa de lançamento dos livros, lançamento em Bienal mas quando chegou a hora de receber pelo meu trabalho começou meu “perrengue”.

Quando me pagavam, sempre uma quantia irrisória pois me apresentavam umas planilhas que não eram reais pois na ocasião eu viajei pelo país e pude constatar que os livros eram vendidos em todas as regiões. Comecei então a reclamar e eles me diziam que os livros tinham sido um fracasso em vendas e que não mais publicariam nada meu.

Estranho serem os livros um fracasso em vendas pois o Sr. Ricardo Reinprecht publicou vários outros livros para crianças com a mesma linguagem, metodologia e layout usados por mim. Um verdadeiro plágio. Voltei a reclamar e sem nunca me receber depositou uns caraminguás em minha conta corrente.

Logo depois adoeci, tive que fazer tratamento (já estou curada) e o tempo foi passando…

Portanto sou extremamente solidária à causa de Gabriel Torres e farei o que puder para ajudá-lo nessa empreitada que não será ganha por esses impostores.

Gabriel Torres

Eu publiquei 18 livros pela Axcel Books entre 1996 e 2002. A partir de 1997 eles começaram a atrasar o pagamento de royalties (“direitos autorais”). Quando fui conversar a respeito, a resposta do “diretor-presidente” da empresa, Ricardo Reinprecht, foi a de que seu não estivesse satisfeito que eu poderia procurar outra editora. Grafo “diretor-presidente” entre aspas porque este cargo só existe em empresas do tipo sociedade anônima; empresas do tipo limitada o cargo máximo é gerente ou sócio-gerente. Isso já mostra a mania de grandeza da figura.

Bem, como eu não queria parar de publicar livros, aceitei calado a situação. O problema é que foi criando-se um efeito “bola de neve”. Por exemplo, se os royalties apurados em um determinado mês era de R$ 10.000, me pagavam R$ 5.000 e aí o saldo restante (R$ 5.000) acumulava para o próximo mês juntamente com os royalties daquele mês (mais R$ 10.000, totalizando R$ 15.000). E assim sucessivamente. Sem contar a suspeita da prestação de contas errada (isto é, a editora reportando que vendeu uma quantidade de livros inferior à que realmente havia vendido), hipótese levantada pelo ex-autor da Axcel André Valle.

Clarificação: várias pessoas perguntaram porque eu não entrei na justiça no momento em que eles começaram a atrasar os pagamentos. O contrato inicial me prendia na editora por dois anos. Conhecendo o naipe dos sócios da editora, sabia que a partir do momento em que entrasse na justiça, eles parariam de me pagar (mas não parariam de vender os livros) e eu não poderia publicar novos livros por outra editora por dois anos. Como estava comprando um apartamento financiado, eu precisava dos pagamentos, mesmo atrasados e com valores menores do que os devidos, para pagar as prestações. O meu salário na época era insuficiente para pagar as prestações. Portanto ou era aceitar a situação ou era perder o apartamento.

O detalhe é que enquanto eles atrasavam os pagamentos do royalties, o casal Reinprecht comprou um apartamento de frente para a praia da Barra da Tijuca (Av. Sernambetiba) – e ainda ficam tirando onda do sofisticado sistema de iluminação computadorizado que mandaram instalar – e uma Mistubishi Pajero (o outro sócio da Axcel na época, Romero Portella, também comprou uma, influenciada pelo casal). Realmente revoltante, pois estava claro que eles estavam comprando tudo isso com o MEU dinheiro!

O problema é que na época eu tinha muitas obrigações (estava comprando um apartamento financiado) e dependia dos royalties, mesmo menores do que deveriam ser, para poder pagar as contas. E vivia apertado, quando na verdade deveria estar bem “folgado” e tranquilo de grana. Eu sabia, pelo histórico do que já havia ocorrido com outros autores, que se eu fosse tomar alguma ação mais enérgica em relação à esta situação (notificação judicial e consequente processo) seria um rompimento total, isto é, eles iriam parar de vez de me pagar; este era o perfil da empresa.

Uma “solução” que eles me deram foi o pagamento de parte da dívida com livros, para eu vendê-los e recuperar a grana “presa”. Eu cheguei a fazer isso e vendi (e empacotei) pessoalmente vários livros Hardware Curso Completo 3ª edição entre 1998 e 1999 através do meu site Clube do Hardware, mas depois de um tempo fiquei pensando se Paulo Coelho, Jorge Amado e outros autores best-sellers precisaram alguma vez na vida vender seus próprios livros porque a editora não estava os pagando em dia. Não só isso, eu sou um cara “certinho” e o que eu estava fazendo estava na área “cinza” da lei; afinal de contas eu estava vendendo os livros como pessoa física pela Internet, sem ter uma empresa (livraria). Após um tempo decidi parar com isso.

Outro detalhe foi que o “diretor-presidente” da Axcel Books me fez uma proposta “de boca” que eu me ferrei, se eu alterasse uma cláusula dos meus contratos que dizia que eles tinham a opção para publicação dos meus futuros livros de dois anos para quatro anos eles me dariam uma BMW 325i Top zero quilômetro. Assinei e estou esperando a BMW até hoje… Deveria ter ao menos posto isso no papel; hoje sei que eles não cumpririam de qualquer forma, mas pelo menos teria o papel de recordação.

Clarificação: Algumas pessoas me perguntaram porque eu fiz essa burrice. Bem, olhando para trás a burrice está óbvia, mas no calor da emoção e com o papinho que vende gelo para esquimó foi difícil recusar, fora ter 24 anos e não ter a experiência de vida que hoje eu tenho. São justamente situações como esta que nos dão experiência.

No final de 2001 eu comecei a falar com eles mais seriamente em uma posição para a resolução da dívida, incluindo um levantamento total dos valores devidos. Eles também falaram que “faziam questão” de pagarem por uma auditoria externa (que nunca aconteceu). Durante o ano de 2002 (sim, demorou um ano para conseguirem colocar em ordem a zona que era a papelada da contabilidade deles; eles eram tão desorganizados que este valor nunca existia prontamente no sistema de contabilidade deles) eles levantaram o quanto eles realmente estavam me devendo. O valor da dívida totalizou cerca de R$ 160.000, de acordo com as contas deles.

Aqui vale lembrar que meu contrato (a propósito, totalmente ilegal; falarei sobre ele em outra oportunidade) estabelecia que meus royalties eram de 10% sobre as vendas dos livros, ou seja, 10% do faturamento que a editora tinha com os meus livros. Dessa forma, se eles estavam me devendo R$ 160.000 (pelas contas deles), significa que esta dívida vinha de um faturamento de R$ 1,6 milhão com os meus livros. Como você pode perceber, os caras faturaram muito em cima de mim e, mesmo assim, se recusavam a pagar meus royalties corretamente.

Clarificação: Várias pessoas me perguntaram porque eu assinei um contrato ilegal. Há de se colocar as coisas em perspectiva. Após escrever o meu primeiro livro, procurei as principais editoras que publicavam livros de informática no Brasil (Makron, Campus, Berkeley e Axcel) sendo que todas elas recusaram a publicação do meu livro, menos a Axcel. Na época, com 21 anos e sem a experiência de vida necessária e querendo publicar meu livro após três recusas, assinei o contrato julgando que o que o “diretor-presidente” da Axcel estava me falando era o correto. O “diretor-presidente” da Axcel era um cara que passava confiança e experiência (como todo bom trambiqueiro) e confiei. Me ferrei. Lição aprendida, hoje não assino nada sem consultar primeiro a minha advogada.

Aí em dezembro de 2002 eles vieram com mais uma proposta “caracu” (eles obviamente entrando com a “cara” e eu entrando com o resto): para me pagarem esta dívida eu deveria escrever mais dois livros (Segurança de Redes Curso Completo e um livro sobre Upgrade de computadores); assim eles levantariam o dinheiro e poderiam ter condições de me pagarem.

Voltei para a casa e fiquei pensando nessa loucura. Quer dizer então que os caras torraram toda a minha grana e para me pagarem eu preciso gerar dinheiro para mim mesmo? Não faz o menor sentido.

No início de 2003 vi que dava para me sustentar somente com a receita do meu site Clube do Hardware e resolvi mandar bronca. Contratei uma advogada especializada em direitos autorais (que de cara falou que o contrato era totalmente ilegal), que enviou uma notificação extrajudicial à Axcel Books. Uma notificação é o primeiro passo necessário para iniciar um processo e nada mais é do que um aviso formal de “chamar para a conversa”. Em resumo: “olha, vocês têm uma dívida com o Gabriel Torres, damos um prazo de x dias para entrarem em contato ou entraremos com uma ação judicial”.

Passou o tal prazo e para nossa surpresa a Axcel Books entrou com um processo contra mim. Veja a loucura! Eles afirmavam que ficaram surpresos com a nossa notificação e que eles eram “bom pagadores” e que eu estava “agindo de má fé” (textos de rolar de rir como esses foram uma constante no processo), e que estavam pedindo ao juiz a me obrigar a entregar os livros que eu havia prometido escrever e atualizar todos os meus livros já publicados. Loucura total. Primeiro porque eu não havia assinado contrato para escrever o tal livro de upgrade de computadores, segundo o contrato para o livro de segurança de redes eu já havia assinado, mas no próprio contrato dizia que se eu não entregasse o livro em 60 dias o contrato estava automaticamente cancelado – e já havia passado mais do que 60 dias da assinatura do contrato! -, sem contar que o livro seria em co-autoria com um amigo meu, sendo que eu teria a menor participação no livro, e este meu amigo nunca foi citado ou processado! E para fim de conversa, não existe nenhuma lei que me obrigue a atualizar os meus próprios livros! No contrato deles inclusive havia uma cláusula (ilegal) que dizia que se eu me recusasse a atualizar os livros eles poderiam contratar um co-autor para fazê-lo! Ou seja, só mostra a loucura dos caras!

Daí entramos com um pedido de reconvenção, isto é, dizendo que a história não é nada daquela contada e quem está errado é ele e não eu. O juizo obviamente aceitou o nosso pedido e daí mandamos ver. Pedimos uma perícia para apurar os valores devidos, o juizo aceitou, elegeu um perito contábil com ordem judicial para entrar na Axcel Books e fazer uma auditoria em toda a contabilidade, contagem de estoque, livros, notas fiscais de gráficas, enfim, toda a documentação disponível para apurar os valores devidos e para ver se eles me reportaram a quantidade de livros que havia realmente sido vendida. O que a Axcel Books fez? Impediu a entrada do perito contábil na empresa em todas as vezes que o perito tentou entrar, desrespeitando ordem judicial!

Clarificação: Algumas pessoas perguntaram porque o perito não chamou a polícia para forçar a sua entrada na sede da editora. Aqui cabe uma explicação. Eu ou os meus advogados não tivemos nenhum contato físico com o perito. A decisão de chamar força policial é exclusiva do perito, nós não tivemos qualquer participação neste processo. O perito preferiu, em vez de chamar força policial, perguntar ao juiz o que fazer neste caso.

O juizo então determinou que, como a Axcel Books não estava colaborando, a perícia seria feita da seguinte forma. Pegou-se os relatórios de pagamento que eu tinha (outro detalhe, a Axcel não entregava relatórios de pagamento periódicos como constava em contrato) e fez-se uma média de quanto eu ganhava, por mês, por livro. Pegou-se essas médias e multiplicou-se pelo número de meses pelos os quais a Axcel não prestou contas, isto é, não apresentou os relatórios de valores devidos, mais correção monetária. Na época da apuração dos valores, o perito chegou ao cálculo de que a Axcel Books me devia cerca de R$ 1,3 milhão!  Hoje, com juros e correção monetária, este valor está acima de R$ 2 milhões! A Axcel não recorreu. O processo entrou em fase de execução e tudo o que eu consegui foram R$ 5 mil de uma conta-corrente da Axcel que conseguimos bloquear. É o famoso “ganha mas não leva”, uma constante nos processos de dívida no Brasil.

Clarificação: Perguntaram-me como o valor devido foi tão alto. Bem, aqueles que me perguntaram isso provavelmente fizeram uma leitura dinâmica no texto e não se atentaram aos detalhes. O valor total, hoje bem acima de R$ 2 milhões, inclui juros e correção monetária sobre o valor apurado pela perícia, de R$1,3 milhão. E por que este valor estava bem acima do valor original da dívida informado pela Axcel, de R$ 160.000? Como a Axcel se recusou a colaborar com a perícia, o juiz decidiu fazer o cálculo da dívida usando a média do valor dos “royalties” de cada livro, multiplicado o valor encontrado pelo número de meses sem prestação de contas. Isso certamente inflou o valor devido, já que livros, especialmente de informática, têm uma vida útil limitada (só vendem bem durante um certo tempo, pois após um tempo ficam obsoletos), ou seja, o valor apurado pela perícia foi maior do que o valor realmente devido, seguindo instruções dadas pelo juiz. Sem contar que a suspeita que eles imprimiam mais livros do que reportavam é forte. Lembrando que a Axcel não recorreu, portanto ela aceitou esta interpretação.

Pelo valor, fica a enorme suspeita que realmente a Axcel imprimia e vendia mais livros do que reportava a mim, mas isso nunca teremos como provar ou saber de verdade, já que o perito contábil nunca conseguiu ver as notas fiscais das gráficas.

Com o meu processo e o de outras pessoas, conseguimos pelo menos tirar esta empresa do mercado, evitando que ela lesasse outras pessoas.  O problema é que os sócios estão livre, leve e soltos por aí torrando a grana que roubaram de mim e de tantos outros. Infelizmente o processo é contra a editora e não contra os sócios. Sinceramente esperamos um dia conseguir ir criminalmente atrás dos sócios da Axcel Books.

Bem, em linhas gerais é essa a minha história. Tem muito mais detalhes menores. Por exemplo, quando começamos a batalha judicial, eles pararam de me pagar, mas não pararam de vender os meus livros. É muita cara de pau.

O que eu fico mais triste é que se a Axcel Books fosse correta com os seus autores, todo mundo sairia ganhando, teríamos no mercado brasileiro inúmeros escritores nacionais felizes, leitores mais felizes ainda e os sócios estariam ricos, sem a necessidade de roubarem dinheiro. Mas junta-se ganância com gastos pessoais desenfreados e o resultado é esse. É justamente este tipo de picaretagem que acaba com o Brasil.

Onde estou hoje: Eu ganhei o processo, não cabendo mais recursos. O processo está em fase de execução mas, como a Axcel Books fechou as portas e os sócios estão morando em local não conhecido, não conseguimos notificá-los para o pagamento da dívida. Por isso se você sabe do paradeiro dos sócios Ricardo Reinprecht e Gisella Narcisi Reinprecht, por favor, me avise. Eu fechei contrato com outra editora e já republiquei o meu livro de redes e deverei republicar os demais.